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sexta-feira, 5 de abril de 2019



Apaguem o dia, porque à noite queremos gozar
Defino esses olhos todos, famintos como os de um cão sem dono
A lamber a escuridão com o olfato no sentido do prazer dos toques,
E eu só sei da boca aberta a devorar cada capricho meu
Há no sonho duas mulheres e um homem no meio
Via nas cartas, flores nascendo aos seus pés
Três generosos loucos fascinados sentam-se lado a lado
E tratam os assuntos mal resolvidos pelas vias de fato,
Com as borrachas nas mãos apagam os mal ditos
Escrevem nos lençóis coisas tão descabidas, quanto poemas
Medem os impulsos, o ritmo e as excitações. Os estímulos transcendentes aos sentidos compõem um palco ilimitado e fértil
O que salta do coração, vaza na língua e abrem-se as defesas,
Por certos, desacatos se experimentam, de olhos fechados
Não desejam conselhos
Os três numa união mais que perfeita,
Onde o amor se cala e não mete o bedelho


Charles Burck 






                                                                       As borboletas


E se eu e ela tivéssemos vidas como as borboletas eu voaria com ela, por sobre os mares que cantamos em poemas,
e se eu pudesse escolher, abriria mão dos ventos, para viver eternidades pousado no peito dela
E borboleta não seria mais, porque as minhas asas atrofiariam,
e se pudesse escolher ainda mais onde morrer, abrira mão do mar, porque deitado sobre ela eu teria os mares todos,
e as vidas todas para ouvi-la marear os mares que deixei
E seria eu apenas felicidade a formar redemoinhos, mansos à volta dela
E se as borboletas soubessem de nós viriam também abrir mãos dos voos,
E pousariam sobre o peito dela
E saberiam todas como é, estando sobre o amor, amar


                                                                      Charles Burck 

quinta-feira, 21 de março de 2019


As mulheres pareciam ter os mesmos rostos,
Todas irmãs de um poema,
As mãos dispostas num aceno e o sentido de que tudo é comum,
Mas comum é a ausência medida sob a pele
A falta que faz um epilogo a adiar o término
Redemoinho sem vento, ilações que as emoções nasceram agora
Mas faz tempo que observo os rostos,
Os elementos do tempo dispostos em teus olhos
Como se tudo estivesse parado, à espera do choro


Charles Burck




peter fronth
Assombram-me os dias mais largos, boca imensa de sorriso sincero,
O arco de sol transcreve sobre os cabelos das mulheres, diademas de luzes
Há matérias de ausências à mercê do verbo
A luminosidade que atravessa os olhos e visita as sombras
E resgata a pureza da alma aprisionada numa cidade pequena, 
E há o mundo e os seus excessos,
Mas o gato me lambe os pés e o mundo cresce
E sábado, e o mundo é outro
E o calabouço fechou as portas, e o amor corre solto,
Solte as rédeas e há momentos tão maiores do que nós,
E me calo, sem coragem de pedir alguma coisa além
Charles Burck
John Lovertzol

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Somos esse pecado, somos divididos meio a meio
Um tempo no meio
Os olhos cegos não se importam de estarem fechados,
A teias e tramas iridescentes dos cavaleiros do apocalipse informam os boletins do clima
Meu gato escaldado, minha rede adormecida, 
Tudo nos esperando à mesa,
Um outro mundo estranho passou a juntar-se a mim,
Larguei a sensualidade até encontrar as tuas costas,
Algumas noites morrem mais devagar, em outras as estrelas permanecem por todos os dias acesas, independentes da escuridão
Como se vivessem avisando que perderam a memória do céu,
O calor e frio em partes iguais,
Somos isso
Como se tivéssemos perdido um meio pedaço de cada um
A memória necessária para nos mantermos em movimento
O imenso olho azulado do mundo pregando peças
Mudando os horários de tudo, subvertendo nossas pressas, vou almoçar mais uma noite sozinho, e conversar com as estrelas e as corujas ao meio dia
A ti uma noite boa, ainda que em meus olhos seja dia
E um dia sereno a ti, enquanto durmo

Charles Burck

Afifa Aleiby

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019


No segredo de um olhar
Bebo toda a a capacidade de suportar o teu silêncio
Lamentavelmente, admito que nada me seja suficiente
Quando a alma quer a voz esculpida
E a ela se tenha perdido pelo caminho
A frequência do vazio nos capitula,
E o vício do ópio vaza do umbigo,
Fica o disco riscado como coisa em decomposição, repetindo
O que não queremos saber,
Manter a cabeça fora d’água num dia de primavera e chuva
É como acordamos todos os dias para a morte,
A roupa apodrecendo no varal
Com cheio de coisa morta
E anúncios de que o mundo terminou ontem


Charles Burck




Não peçam aos passarinhos que adormeçam para silenciar os seus cantos,
Eles cantam antes do amanhecer e depois de chegada a morte
E não entanto não se entristecem por saber que o céu adorme cedo,
Na paz de cada um, o melhor de cada ser.

Charles Burck